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Festa de São Vito chega à 108ª edição em SP com receitas centenárias, ‘mammas’ na cozinha e trabalho social no Brás

Festa de São Vito 2026 Divulgação Uma das mais tradicionais da cidade de São Paulo, a Festa de São Vito atravessou guerras e mudanças no bairro do Brás, ...

Festa de São Vito chega à 108ª edição em SP com receitas centenárias, ‘mammas’ na cozinha e trabalho social no Brás
Festa de São Vito chega à 108ª edição em SP com receitas centenárias, ‘mammas’ na cozinha e trabalho social no Brás (Foto: Reprodução)

Festa de São Vito 2026 Divulgação Uma das mais tradicionais da cidade de São Paulo, a Festa de São Vito atravessou guerras e mudanças no bairro do Brás, além de chegadas e saídas de gerações inteiras de famílias italianas na região. Ela passou de uma quermesse de rua para um grande e estruturado evento, feito com a ajuda de muitas mãos — e mammas. Ainda assim, ela segue sendo reconhecida por três pilares que resistem ao tempo, que são a fé, a comida e a comunidade. Criada em 1918 por imigrantes italianos vindos de Polignano a Mare, no Sul da Itália, a festa chegou neste ano à 108ª edição com um cardápio que preserva receitas centenárias, uma rede de voluntários que ainda funciona em lógica familiar e uma missão que vai além da celebração religiosa: ajudar a manter a Creche São Vito, que atende mais de 100 crianças no bairro. “Tudo o que nós fazemos aqui é por eles, é pela creche”, resume Margareth Batelli Capellini, de 67 anos, vice-presidente da festa. Há 46 anos na associação, ela é a primeira mulher a ocupar o cargo. A festa nasceu antes da igreja Segundo a Associação Beneficente São Vito Mártir, a primeira edição da festa aconteceu em 15 de junho de 1918, no Brás, como um evento religioso e social organizado por italianos em homenagem ao seu padroeiro. A igreja foi fundada apenas no ano seguinte, em outubro de 1919, com o objetivo de construir a capela de São Vito, inaugurada em 1920. Matheus Rodak, diretor, voluntário da associação e paroquiano, lembra que a Igreja de São Vito virou um marco importante da imigração italiana em São Paulo, especialmente na Zona Cerealista do Brás, onde muitos comerciantes italianos ajudaram a erguer o templo. “A festa era feita na porta da igreja até 1980. A partir de 1980, um terreno vazio foi pedido emprestado à prefeitura e virou o local do evento", explicou. As ‘mammas’ que ainda seguram a tradição Inevitavelmente, a identidade da festa também passa pela cozinha. É aí que entram as chamadas Mammas di San Vito, um grupo de mulheres que, ao longo das últimas décadas, preservou os pratos típicos da festa. São elas as responsáveis por manter, de geração em geração, receitas da culinária pugliese servidas ao público até hoje. Margareth diz que o crescimento da estrutura e a modernização da cozinha ajudaram na operação, mas não alteraram a essência. “Antigamente nós não tínhamos esses maquinários que nós temos hoje, mas o que não muda e nunca vai mudar é a nossa tradição, a nossa comida. É o nosso molho, a nossa guimirella.” Desconhecido por muitos, nenhum prato parece representar tão bem a Festa de São Vito quanto a tal da guimirella — um espeto de fígado de boi enrolado em gordura suína com folha de louro. “É o prato mais típico que nós temos aqui. Só aqui que tem esse prato", garante Margareth. O preparo exige paciência e técnica, já que o fígado é cortado em pedaços, a “renda” de porco é lavada uma a uma e o embrulho é feito manualmente. “Toda vez que a gente está fazendo, a gente brinca: ‘Maledetto quem inventou esse prato’”, conta Margareth. “Eu quero ver no dia de amanhã quem vai fazer.” Festa de São Vito TV Globo 20 mil pessoas e toneladas de comida A festa acontece sempre aos fins de semana entre maio e julho e recebe, de acordo com a associação, mais de 20 mil pessoas ao longo da temporada. Na cantina, cabem 600 pessoas sentadas, e na praça de alimentação o público chega a 2 mil pessoas por noite. Para dar conta desse movimento, a produção é pesada. Margareth estima que sejam feitos, por noite> De 100 kg a 150 kg de massa só para a ficazzella; A ficazza consome de 50 kg a 80 kg por noite; O molho de tomate exige de 60 a 70 caixas de tomate por fim de semana. A muçarela também vai em escala grande, assim como o antepasto de berinjela, feito com pimentões, cogumelos, uva-passa, cebola branca, azeite e “as mãos da mamma”, como destaca a vice-presidente. “Haja comida, haja massa, haja braço e haja muçarela”, brinca. “No último dia de festa, a gente faz o maior carnaval, joga confete, serpentina, dança, brinca.” A Festa de São Vito foi reconhecida em 2024 como manifestação da cultura nacional. Para quem está lá dentro, ela continua sendo algo mais íntimo do que um patrimônio oficial. Para Matheus, o sentido do evento está na combinação entre tradição e serviço. “Poder ajudar as pessoas é a melhor coisa que tem. Não existe fé sem obras.” Os dois resumem que, no fim das contas, é essa mistura que fez a festa seguir viva por mais de um século. “Mangia che ti fa bene!”, exclama a anfitriã num italiano fluente. Em bom português: "Coma que te faz bem." Matheus Rodak Divulgação A creche Segundo a associação, a Creche São Vito foi inaugurada em 1996 e hoje atende mais de 100 crianças de 1 a 4 anos. A maioria é formada por filhos de famílias em vulnerabilidade social da região, muitas delas de imigrantes. A festa preserva receitas da Puglia, cânticos, procissão e referências diretas a Polignano a Mare, mas o contexto geral mudou. “O bairro antigamente era de poloneses e italianos”, diz Margareth. “Hoje já não tem mais isso. Hoje é chinês, boliviano, venezuelano, equatoriano...” E a mudança aparece principalmente na creche, que atende justamente o novo perfil migratório da região. “As nossas crianças são todas elas, a gente abraçou todas elas”, diz Margareth. Festa de São Vito TV Globo