Quem é o físico que identificou o acidente com Césio-137 em Goiânia?
Profissionais que atuaram na época do acidente com o césio-137 relembram histórias O físico Walter Mendes Ferreira teve um papel de extrema importância par...
Profissionais que atuaram na época do acidente com o césio-137 relembram histórias O físico Walter Mendes Ferreira teve um papel de extrema importância para conter o maior desastre radiológico da história. Aos 29 anos, ele foi o responsável por identificar o acidente com o césio-137 em 1987, em Goiânia. CÉSIO-137: veja página especial sobre o acidente radiológico No dia 29 de setembro daquele ano, o físico foi chamado para analisar uma substância desconhecida deixada na Vigilância Sanitária, que havia permanecido por um dia no local, dentro de uma sacola plástica. Com apoio de um aparelho de medição de radiações ionizantes, ele identificou o risco e orientou a evacuação imediata. O acidente foi oficialmente reconhecido e notificado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), que depois comunicou o caso à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). ✅ Clique e siga o canal do g1 GO no WhatsApp Atualmente, com 73 anos, Walter é chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da CNEN. Walter foi a inspiração para o personagem interpretado pelo ator Johnny Massaro na minissérie “Emergência Radioativa”, da Netflix. O que aconteceu com as vítimas do Césio-137? Como estão os locais atingidos pelo Césio-137? Natural de Minas Gerais, o especialista é casado e tem dois filhos. Ele é formado em física, com pós-graduação em proteção radiológica e segurança nuclear pela Universidade de Buenos Aires e mestre em engenharia nuclear pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro. Para a revista que relembrava os 37 anos do acidente com o Césio-137, elaborada pelo Governo de Goiás, Walter contou que sua experiência de vida ficou marcada pela tragédia. “Sofremos uma mudança brusca. Na época, eu tinha 29 anos, então fui trabalhar com as vítimas, porque a maioria das pessoas ficaram doentes e aéreas. Tinha que ter uma pessoa a frente, então, fui trabalhar com eles. Hoje, lutamos para que o acidente não seja esquecido”, relatou. Walter Mendes Ferreira foi o responsável por identificar o acidente com o césio-137 em 1987 Reprodução/Cnen Lições deixadas pelo césio-137 Físico Walter Mendes Luana Avelar/SES-GO Para Walter, o acidente em Goiânia deixou lições para toda a comunidade científica que utiliza a tecnologia nuclear, que foram incorporadas por vários organismos internacionais. “As ações empregadas para mitigar o acidente levou ao aprimoramento e criação de novos protocolos e procedimentos: a radioproteção caracterização de rejeitos, comunicação com o público e mídia, o trabalho conjunto com instituições afins, instrumentação nuclear, descontaminação de áreas, o atendimento médico ao radioacidentado, a criação de um arcabouço legal para esse tipo de acidente e o fortalecimento do poder regulatório”, destacou o especialista. Após a tragédia, o físico ressaltou que foi implantado um sistema de informação ao público incorporado ao Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), com palestras e cursos para alunos dos diversos níveis para desmistificar avaliar a percepção da tecnologia nuclear e mostrar suas diversas aplicações e os seus benefícios. Anualmente, o centro atende em média 2,5 mil alunos. LEIA TAMBÉM: Césio-137: maior acidente radiológico da história deixou 4 mortos, 6 mil toneladas de lixo e ainda terá impacto por mais 200 anos Césio-137: Mãe de Leide das Neves, símbolo do acidente, desabafa após quase 40 anos: 'A gente revive tudo' VÍDEO: Vítimas do Césio-137 foram enterradas sob protesto de moradores e com cruzes sendo arremessadas Relembre o acidente Imagens da tragédia do Césio 137 Reprodução/ TV Anhanguera O acidente radioativo teve início em 13 de setembro de 1987, quando Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Eles levaram a peça para a casa de Roberto, na Rua 57, onde removeram o lacre da cápsula que continha césio-137 na forma de pó, semelhante ao sal de cozinha, mas que emitia um intenso brilho azul no escuro. Em 18 de setembro, a peça foi vendida para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho, que ficou encantado com a luminosidade e distribuiu fragmentos da substância para familiares e amigos. Sem saber do perigo, as pessoas manipulavam o material, o que causou sintomas imediatos como náuseas, tonturas, vômitos e diarreia. A suspeita de que o pó era o culpado surgiu com Maria Gabriela, esposa de Devair, que em 28 de setembro levou a cápsula em uma sacola de plástico até a Vigilância Sanitária. Residência onde o equipamento com Césio-137 foi aberto Divulgação/Cnen O acidente foi oficialmente identificado no dia seguinte, 29 de setembro, pelo físico Walter Mendes, que confirmou os altos níveis de radiação e iniciou o isolamento das áreas afetadas. De acordo com informações divulgadas pelo Governo de Goiás, na época, um monitoramento realizado no Estádio Olímpico avaliou mais de 112.800 pessoas, das quais 249 apresentaram algum grau de contaminação e 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente. O acidente resultou em quatro vítimas fatais diretas, que faleceram entre quatro e cinco semanas após a exposição devido à Síndrome Aguda da Radiação (SAR): Leide das Neves Ferreira: Um dos símbolos da tragédia, a menina de apenas 6 anos era filha de Ivo Ferreira, e foi a pessoa mais afetada por ter brincado com o pó e ingerido partículas. A criança morreu em 23 de outubro de 1987 e foi enterrada em um caixão de chumbo de 700 quilos para conter a radiação. Maria Gabriela Ferreira: Esposa de Devair e a pessoa responsável por evitar que a contaminação fosse ainda maior, ela adoeceu três dias após o contato e faleceu na mesma data que Leide, em 23 de outubro, aos 37 anos. Israel Batista dos Santos: Jovem de 20 anos era funcionário de Devair e trabalhou na remoção do chumbo da fonte. Ele faleceu em 27 de outubro. Admilson Alves de Souza: Aos 18 anos, ele também era um funcionário do ferro-velho, que manipulou a fonte radioativa e morreu em 28 de outubro. A tragédia gerou 6 mil toneladas de rejeitos radioativos, que estão armazenados de forma definitiva em depósitos em Abadia de Goiás. Atualmente, o Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA) continua monitorando a saúde das vítimas e de seus descendentes. Milhares de pessoas foram avaliadas na época do acidente com césio-137 Reprodução/Cara 📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás. VÍDEOS: últimas notícias de Goiás